Geada supera os 10 cm de altura durante as manhãs frias de São Joaquim (SC)
Quem nasce na Serra Catarinense, um dos lugares mais frios do Brasil, está acostumado com uma vida, digamos, pouco brasileira. Em vez de castelinhos de areia, o negócio das crianças é fazer bonecos de neve. Onde? Nas cidades de São Joaquim, Urubici, Urupema e Bom Jardim da Serra. Autoesporte passou três dias na região em um dos finais de semana mais frios do ano, quando a temperatura bateu 7º C negativos. A bordo de um Land Rover Discovery 4 TDV6, desbravamos 850 km, saindo de São Paulo com uma temperatura de 18º C e fomos recebidos por 10º C, o que os catarinenses da serra consideram ameno.
Termômetro marca 0º C, enquanto estalactites se formam na grade dos carros
A noite cai, e a expectativa toma conta de São Joaquim no sábado, com previsão de neve. Cinco passos na rua são suficientes para ouvir a palavra “neve” ao menos uma vez. Bonecos feitos de gesso imitam os que estamos acostumados a ver só em filmes. Eles estão espalhados por todas as partes e, por um momento, a sensação é de estar fora do Brasil. O bom e velho Fusca no meio do cenário nos conduz à realidade novamente. Nos restaurantes e hotéis, os olhares se voltam para as janelas a todo instante, e qualquer movimento no céu é motivo para correr até a rua e tentar encontrar um floco branco vindo lá de cima. Todos – inclusive nós – estão lá para ver neve.
Discovery 4 coberta de gelo a -3º C
A viagem para a rota do frio fica ainda mais interessante quando se chega à região via Florianópolis (distante 227 km de São Joaquim) pelas curvas fechadas da Serra do Rio do Rastro, alvo da neve todos os anos, entre as cidades de Lauro Muller e Bom Jardim da Serra. Dali até Urubici, placas com o aviso de “gelo na pista” fazem a gente se sentir na Europa. A escrita em português e os carros nacionais lembram que, por mais incrível que pareça, estamos no Brasil. “Quando neva e concentra gelo na pista, as estradas na serra ficam fechadas. O risco de acidente é muito grande”, afirma Varlei Mariot, dono de um bar na região há mais de 20 anos. Até mesmo a vegetação é semelhante à europeia, com tom amarelado, muito diferente da mata atlântica servida de muita chuva e sol em grande parte do Brasil. E nada da bendita neve...
Bonecos de neve estão por toda a cidade de São Joaquim e há até locais para esquiar na região
Como não frustrar quem vem em busca da tal da neve? A prefeitura aposta em uma máquina de neve artificial seminova, trazida do Canadá. No dia de sua estreia, infelizmente, só funcionou mais de cinco horas depois do previsto, quando não havia mais turistas na rua. Poucos flocos caíram do céu. Mais uma vez, fomos dormir frustrados em busca da neve.
Fogo sob o tanque
Carros atolados no gelo ou parados por conta do frio são comuns, principalmente quando as nevascas bloqueiam estradas. Presenciei um Gol 2011, alugado por um turista de Fortaleza (CE), que não ligava após uma madrugada de -4º C. “Não é possível que a locadora deixe o carro sem antidescongelante. Peguei o carro em Gramado (RS), onde também é muito frio”, lamentava o empresário João Braga. Sobrou para o mecânico Ederson Figueiredo, acostumado a salvar os turistas desprevenidos de São Joaquim.
Mecânico conversa com turista nordestino, enquanto carro fica exposto ao sol para aquecer a água do motor (1). Prefeito de São Joaquim posa ao lado da máquina de neve: "De verdade ou artificial, quem vir aqui vai ver neve" (2). Meteorologista Ronaldo Coutinho trocou o calor de Floripa para viver abaixo de zero na Serra Catarinense (3). Luiz Cechinel já colocou até fogo embaixo de carro que ficou sob a nevasca durante a madrugada (4)
E como resgatar um carro atolado na neve, que passou a madrugada abaixo de zero? Do jeito mais brasileiro possível. “Juntamos lenha e colocamos fogo embaixo do carro, próximo ao tanque. Só não pode ficar perto”, conta o mecânico Luiz Cechinel. Isso mesmo! Um incêndio dá conta de aquecer o combustível e todos os fluidos do carro novamente. Quando ele dá o primeiro sinal de que vai funcionar, o fogo tem de ser rapidamente controlado. “Carros a diesel são os que mais dão problemas, por conta do combustível criar uma espécie de parafina”, diz Cechinel. Há casos de trinca no bloco e até furos no coletor de admissão por conta do frio intenso. A alternativa encontrada para fazer um carro a diesel funcionar é adicionar um pouco de querosene no tanque e trocar o filtro de combustível. “Enchemos o tanque com 10% de querosene. É tiro e queda”, detalha o especialista. Correntes nas rodas ainda são úteis na região? “Foi-se o tempo que usavam esse recurso. Hoje ninguém tira mais o carro de casa quando neva muito forte, até porque as vias são bloqueadas pela polícia”, conta.
Anticongelante varia entre R$ 20 e R$ 50 e pode ser encontrado nos postos. Vela aquecedora é adaptada nos velhos carros a diesel e também nos caminhões. Esse tipo de motor é o que mais sofre com o frio rigoroso.
Sem medo do frio
Dois mil quilômetros de estrada, com direito a pequenas trilhas e até lagos a bordo de um Land Rover Discovery 4 HSE. O motor 3.0 V6 (245 cv e 61,2 kgfm) consumiu quase 240 litros de diesel. O farol de xenônio poderia ser mais eficiente à noite, mas não há o que reclamar do propulsor, que não teve medo nem mesmo do frio de -6º C durante a madrugada. Ele funcionou na primeira tentativa (até ameaçou oscilar) e não demorou a se firmar, enquanto o painel marcava 0º C por volta das 9 h da manhã. O comportamento é o de um verdadeiro “Bentley off-road”. O conforto dado aos ocupantes não lembra em nada um jipão e, para ele, uma “tartaruga” é o mesmo que uma pedrinha para qualquer carro popular: nada. A suspensão a ar se ajusta de acordo com a velocidade e passa segurança de um sedã. Ou seja, os ingleses ainda garantem diversão nas curvas